Reflorestamento no Cerrado: projetos que funcionam
No coração do Brasil, pastos degradados começam a reverdecer quando comunidades e pesquisadores escolhem o caminho das espécies nativas — não do eucalipto de prateleira.
O Cerrado ocupa cerca de 22% do território nacional e abriga mais de cinco mil espécies de plantas — muitas endêmicas, ou seja, que não existem em nenhum outro lugar do planeta. Nas últimas décadas, porém, a conversão para agricultura e pecuária consumiu mais da metade da cobertura original. O que resta são fragmentos, corredores estreitos e vastas extensões de capim exótico sobre solo compactado.
Esta reportagem percorreu três iniciativas em Goiás e no Tocantins que invertem essa lógica. Não se trata de «reflorestamento de fachada», com fileiras de pinus ou eucalipto que secam o solo e pouco alimentam a fauna local. São projetos que plantam pequi, baru, ipê-amarelo, jenipapo e cagaiteira — árvores que evoluíram com o fogo sazonal, a seca prolongada e a fauna do bioma.
Viveiros que nascem da comunidade
Em Alto Paraíso de Goiás, às portas da Chapada dos Veadeiros, o viveiro do Assentamento Boa Vista produz entre oito e doze mil mudas por ano. Dona Conceição, 58 anos, coordena um grupo de dez mulheres que coleta sementes na mata remanescente, trata na água e semeia em saquinhos de polietileno reciclado.
«Antes a gente achava que reflorestar era coisa de rico ou de ONG de fora», conta ela, mostrando as bandejas alinhadas sob sombrite. «Hoje vendemos muda para propriedades vizinhas e para a prefeitura, que usa em área de preservação.» O segredo, segundo ela, é não ter pressa: cada espécie tem tempo de germinação diferente, e o pequi pode levar três meses para brotar.
A parceria com a Universidade de Brasília trouxe identificação genética e registro das matrizes — as árvores-mãe de onde vêm as sementes. Isso evita erosão genética e garante que as mudas plantadas a quilômetros de distância pertençam à mesma população local.
Quando a água volta
A quarenta quilômetros dali, na propriedade do engenheiro agrônomo aposentado Márcio Ribeiro, uma nascente que estava seca há quinze anos voltou a formar poço visível. O terreno era pasto contínuo; hoje há faixa de mata ciliar de oitenta metros de largura, plantada em 2019 com apoio técnico do ICMBio.
As fotos de arquivo mostram o mesmo ângulo em 2018 e em 2026: no primeiro plano, solo exposto e solo compactado; no segundo, copas fechando e gramíneas nativas retomando o sub-bosque. «Não fiz milagre», diz Márcio. «Só parei de pisar com gado na beira e plantei o que o manual pedia.» A fauna respondeu rápido: capivaras, tucanos e uma família de veado-campeiro foram registrados por câmeras-trap no último ano.
A escolha das espécies
No Tocantins, o projeto Nascentes do Sono atua em dez propriedades rurais ao redor de Natividade. A equipe técnica elabora um plano por hectare: espécies pioneiras para sombrear e preparar o solo, espécies secundárias para estruturar o dossel e, onde há espaço, árvores frutíferas para uso comunitário.
O erro mais comum, segundo a bióloga coordenadora Ana Paula Siqueira, é plantar tudo de uma vez sem considerar a sucessão ecológica. «Se você põe só ipê no sol pleno sem nurse trees — árvores que protegem as mudas —, a taxa de mortalidade passa de 60% no primeiro verão.» O projeto acompanha cada talhão por cinco anos, com replantio e controle de invasoras exóticas como o molofó e o capim-gordura.
Os resultados são mensuráveis: aumento de matéria orgânica no solo, redução da temperatura superficial em até oito graus nas áreas sombreadas e retorno de polinizadores nativos. Não é recuperação total do Cerrado em uma década — o bioma leva gerações para se recompor —, mas é direção correta.
O que fica da viagem
Reflorestar o Cerrado não é plantar qualquer árvore em qualquer lugar. Exige sementes de origem conhecida, técnicos que respeitam o fogo e a seca como parte do ciclo, e comunidades que veem retorno — econômico ou ecológico — na muda que cuida. Os projetos visitados compartilham paciência e registro: caderno de campo, fotos periódicas, lista de espécies.
Para quem quer apoiar ou replicar, o primeiro passo é identificar matrizes próximas e conversar com universidades ou órgãos ambientais da região. O segundo é aceitar que a copa fechada que veremos daqui a vinte anos começa com um saquinho de muda hoje — regado à mão, sob o sol forte da savana.